11 de novembro de 2008

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Abri uma porta há anos fechada. Rangeu. Libertou décadas de poeira, visível no espaço iluminado das frestas. Uma chuva desagradável, suavizada pela lentidão da queda. A leveza do pó na inexistência de ventos ou correntes de ar. Espero! Observo a descida. Anos acumulados, em queda livre. Fecho a porta atrás de mim. Manifesta uma vez mais a sua imobilidade de anos. Range. Esconde-se a luz. Descubro-me num espaço deslocado do meu tempo... esqueci-o. Quis esquecê-lo! Mas os meus passos (re)conhecem o caminho de cor. Ando... como que de olhos vendados. Apenas o receio de poisar em falso acautela o passo. Ruídos de um tempo passado que permanecem. Ruídos no tempo presente que não adivinham futuro. O chão range! Os passos fazem-no chorar as ausências. Geme! Um soalho que sente saudades. Sente-se dorido... roído pelo passar do tempo. Quanto queria não ter aberto novamente aquela porta! Não ouvir ruídos, não ver as lembranças tão roídas, não sentir o meu corpo doer por não haver futuro, não haver presente... e o passado tão longínquo estar tão fresco... apenas e depois da porta se fechar atrás de mim. O meu coração geme a cada passo em frente. E aquela casa chora em todos os cantos. Chora em todas as janelas fechadas. Em todos os focos de humidade. Todos os buracos. Aquela casa grita! Chama-nos a todos. Sabe de cor todos os nome, e chama-nos... um a um. Consigo ouvi-la dizer o meu! Suplica-nos que não a deixemos entregue aos ruídos do tempo. Suplica-nos que não a deixemos ser roída por ele. Sinto que vai perdir-me que a mate para não continuar a morrer aos poucos. Quanto queria não ter aberto novamente aquela porta!
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8 comentários:

mfc disse...

Animamos e amamos as coisas, fazêmo-las nossas e transportamos para elas os sentimentos que fazemos que elas nos retribuam.
Chegamos a formar um todo só que o tempo estreitou!

Maria disse...

Hoje não consigo comentar-te.
Desculpa. Quem sabe amanhã...

Um beijo, em azul

MPereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rosa dourada/ondina azul disse...

Quantas recordações...
Quanto tempo ali se viveu...


Beijo para ti,
com carinho,

Verónica disse...

É importante abrir portas mesmo que signifique abrir chagas.Só assim é possível analisar os nossos medos,anseios,fobias...e continuar o percurso da nossa vida.
Bj azul

AnaMar disse...

Abrir portas para saber do estado das casas. Ter a coragem de ouvir os ruídos, sem se deixar ruir. cada casa é um pouco de nós. Se te chama, não finjas que não ouves. Entra e (re)constrói.

Beijosssssssssssssssssss

João da Silva disse...

Que texto maravilhoso! Você me fez lembrar fortemente Mário Quintana: "o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente."
Beijos carinhosos do João

em azul disse...

Grata pelos vossos comentários.
Um beijo
em azul

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